domingo, 15 de novembro de 2015

Concordância

O rufar dos tambores de guerra:
em deferência ao reconhecimento do casamento gay, eu troquei minha foto no facebook há alguns meses. Desde então, tenho pensado sobre o gigantesco poder que foi tacitamente conferido à empresa. A mudança automática da foto do perfil permite ao facebook fabricar virais de alto impacto social, selecionando discricionariamente a pauta que é e a que não é catapultada na rede. Bueno, aí está: "Mude sua foto do perfil em solidariedade à França e ao povo de Paris." Se parece que estou implicando com uma coisa boba, diria que, em momento críticos, as palavras fáceis (solidariedade, paz, oração) são sempre capciosas.
Para mobilizar a opinião pública para a guerra, tem uma estratégia que não muda muito: somos sempre vítimas. Embora sejamos pacíficos e tranquilos, do outro lado há beligerância, irracionalidade, perfídia, ódio – o que não nos dá outra escolha.
Ora, sabemos que o governo francês está em guerra há muito tempo, e não está sozinho. Correndo o risco de dizer o óbvio, a grotesca “guerra ao terror” já desfilou por Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia, Mali, Líbano, Palestina (para ficar nos casos mais espetaculares), com ataques parecidos com os de ontem (em Paris) tendo já ocorrido na própria Paris (Charlie Hebdo), Madri, Londres, Washington, Nova Iorque. Cidadãos inocentes franceses foram atacados ontem porque há anos o governo francês está em guerra.
A repercussão do evento, contudo, me chama atenção pela imediata adesão social ao lado francês nessa guerra. Por isso comentei sobre o “Mude sua foto do perfil em solidariedade à França e ao povo de Paris”. Junto com a bandeira francesa, meus amigos brasileiros estão postando fotos ao lado de símbolos nacionais franceses, falando francês, orando por Paris (aqui entra em cena uma comunhão religiosa contra o islamismo), o cristo redentor está sendo iluminado com azul, branco e vermelho. A cobertura televisiva reproduz um vídeo de torcedores franceses cantando a Marselhesa (um sanguinolento cântico de guerra, diga-se passagem), como se tudo isso fosse a expressão de nosso amor à paz e de nossa solidariedade com a França-vítima. Estaríamos todos diante de uma despropositada, irracional, traiçoeira e letal agressão externa a uma França pacífica, e isso será repetido das mais diferentes formas nos próximos dias. Obviamente, há grande expectativa por uma resposta robusta do governo francês, como se esperava de Bush depois do 11/09. Quanto maior a comoção, maior a revolta. Quanto mais cresce a revolta, maior terá de ser a resposta que se espera do governo. O que tenho visto nas últimas horas é ascendente rufar dos tambores da guerra.
Sem dúvida o momento é crítico, e por isso mesmo devemos nos proteger da primeira reação. Embora me solidarize com a morte de franceses inocentes e não tenha nenhuma simpatia pelo estado islâmico, não vou cantar a Marselhesa nem trocar minha foto. Sou de igual forma solidário aos inocentes sírios, iraquianos, líbios, afegãos. A todas e todos que estão morrendo e sendo expulsos de casa por esta guerra estúpida da qual o governo francês é um dos responsáveis.
Nessa madrugada um campo de refugiados foi incendiado no norte da França e aparentemente houve inocentes mortos, mas as informações estão desencontradas. Embora tenha todo o jeito de um crime xenófobo, o governo francês descartou a relação e o episódio está esquecido. Nem saberia quais bandeiras teria que usar para homenageá-los.
Por isso é que não vou vestir minha foto com a bandeira da França.
A paz não tem bandeira.
FONTE: https://www.facebook.com/pedro.borba.140/posts/10153596535606832?fref=nf

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