domingo, 25 de agosto de 2013

Escutatória - Rubem Alves

Escutatória
Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que... Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma. Daí a dificuldade: A gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor... Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração... E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade. No fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Vejam a semelhança... Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio... Abrindo vazios de silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.
Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.
Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos... Pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades. Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado. Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou. E, assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência... E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras... No lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia... Que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.


Esse texto faz parte do livro de crônicas:
Rubem Alves. O amor que acende a lua.

Um comentário:

  1. Boa tarde Alma Mel Danda:

    Meu nome é Rodrigo e (também) escrevo de POA.
    A conheci de uma forma até nem boa... Num site onde mencionas que fostes assaltada numa praça de POA!
    Infelizmente, a cidade está ficando cada vez pior: não nos sentimos seguros nem em nossas casas.
    Hoje mesmo presenciei um roubo; vendo gritos - fui numa janela e vi o meliante correndo e pessoas tentando alcançar. Espero que tenha terminado bem (ou nem TER INICIADO TAL CRIME).
    Resido em POA há 18 anos e agradeço por nada ter me acontecido aqui (inclusive me cuido até QUANDO RECEBO TELEFONEMAS...Prefiro ser exagerado e ter bons resultados do que me arrepender depois! Aliás, se arrependimento matasse: nem TERIA NASCIDO; só sendo irônico em situações ruins!).
    Agora coisa boas: mostras ser uma baita pessoa, ainda mais pelas poesias que colocas aqui.
    Em um dos posts, disse que TINHAS PROBLEMA PARA ENTRAR NA PUC: também estudei lá, e era o CAOS. Sei de relatos de gente que lá tinha dificuldade para estacionar... Como tive cadeiras mais para o final da tarde (por volta das 17:30), colegas meus diziam que nesse horário ainda dava: e que de noite não havia mais.
    E em relação ao comentário acima: verdade mesmo.
    Seria isso. Sucesso aí nas CORRENTES e cuidado em POA (como em outros lugares).

    Tchau,
    Rodrigo

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