domingo, 1 de maio de 2011

A Voz do Silêncio

         Marta Medeiros
 
         Pior do que a voz que cala é um silêncio que fala.
         Simples, rápido! E quanta força!
         Imediatamente me veio à cabeça situações
         em que o silêncio me disse verdades terríveis,
         pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.
         Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
         Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.
 

        Silêncios que falam sobre desinteresse,
         esquecimento, recusas.
 
         Quantas coisas são ditas na quietude,
         depois de uma discussão.
         O perdão não vem, nem um beijo,
         nem uma gargalhada
         para acabar com o clima de tensão.
 
         Só ele permanece imutável,
         o silêncio, a ante-sala do fim.
 
         É mil vezes preferível uma voz que diga coisas
         que a gente não quer ouvir,
         pois ao menos as palavras que são ditas
         indicam uma tentativa de entendimento.
 
         Cordas vocais em funcionamento
         articulam argumentos,
         expõem suas queixas, jogam limpo.
         Já o silêncio arquiteta planos
         que não são compartilhados.
         Quando nada é dito, nada fica combinado.
 
         Quantas vezes, numa discussão histérica,
         ouvimos um dos dois gritar:

        "Diz alguma coisa, mas não fica
         aí parado me olhando!"
         É o silêncio de um mandando más notícias
         para o desespero do outro.
         É claro que há muitas situações
         em que o silêncio é bem-vindo.
         Para um cara que trabalha
         com uma britadeira na rua,
         o silêncio é um bálsamo.
         Para a professora de uma creche,
         o silêncio é um presente.

        Para os seguranças de um show de rock,
         o silêncio é um sonho.
         Mesmo no amor,
         quando a relação é sólida e madura,
         o silêncio a dois não incomoda,
         pois é o silêncio da paz.
 
         O único silêncio que perturba é aquele que fala.
         E fala alto.
         É quando ninguém bate à nossa porta,
         não há recados na secretária eletrônica
         e mesmo assim você entende a mensagem.

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