quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Nós já não ouvimos mais

O silêncio se vai.

Nascemos. Rompimento primeiro do silêncio de nove meses que, por mais que não tivéssemos voz, já sabíamos o que significava a poderosa mensagem do carinho materno. A comunicação existe, é estabelecida desde a gestação. A preocupação de Virgínia Menezes, advogada da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre, nos primeiros meses de gravidez a deixava em silêncio. “Nos primeiros meses tive sangramento, e não tinha como sentir o bebe mexer... meu silêncio era de preocupação. Tudo passou quando, no 5º mês, pude realizar a ecografia e ouvir o coração da minha segunda filha”, explicou, tocando na barriga, agora de 7 meses.

Durante a infância raramente temos, ou damos, um momento de silêncio. São muitas descobertas, brincadeiras e acontecimentos extraordinários. Os anos passam, a adolescência chega e nosso silêncio agora é corporal. Os meninos pela voz que, hora fina, hora grossa, causa constrangimentos terríveis, fazendo-os silenciar. As meninas se calam devido às mudanças do corpo: algumas por ficarem com muito peito, algumas por terem muita bunda.

Nossa personalidade se forma e aprendemos que num momento de concentração é preciso estar em silêncio. Perdemos entes queridos e experimentamos o silêncio eterno. Mudamos de opinião, de roupa e de religião diversas vezes, até definirmos quem somos. Muitas vezes isso não se define e as pessoas passam anos em terapia, falando, falando e falando. Nunca em silêncio.

Chegamos à vida adulta e toda a responsabilidade que este momento agrega recai sobre cada um, conforme os sonhos, objetivos e metas a serem alcançadas. Conforme dado da Catho Online (empresa de recrutamento e seleção via web), em 2009, 79,5% dos brasileiros está com contrato de trabalho com a carteira assinada. Ao longo do dia, nós, os trabalhadores, recebemos estímulos auditivos às pencas.

Um golpe ao silêncio.

Desde o despertador para acordar, ao rádio para saber a temperatura, tudo acontece sorrateiramente. O microondas apita três vezes para avisar que o café está quente, a televisão tem trilhas para avisar que o programa está indo e voltando do comercial. Isso está tão presente no cotidiano que passa despercebido.

Quando colocamos o pé fora de casa, raramente ouvimos natureza. Mas os pássaros, alguns, ainda estão lá, cantando nas árvores. Se nas manhãs de sol conseguíssemos ouvir a brisa tocando suavemente as folhas dos ipês amarelos, seria ótimo, mas o ronco de alguns dos mais de 1.500 ônibus que circulam em Porto Alegre, deixa claro que este momento não será possível.

No trânsito é o caos: freada, buzina de caminhão, buzina de moto, batida. Motor, motor, motor, esperando abrir o sinal. Abre o sinal, recomeça a buzina, de carro, de moto e de caminhão, freia, anda, para e mais barulho de motor. Muitos preferem se refugiar deste universo barulhento ao som de suas músicas favoritas, com o celular, rádio, mp3 ou qualquer outro eletrônico. Percebemos uma diferença drástica entre o vidro da janela aberto ou fechado.

Já não sabemos mais como é o silêncio. Encobrimos um som com outro, trocamos os ruídos altos e inconstantes por música alta, que nos tire a atenção do que nos incomoda. Falamos cada vez mais alto e nem percebemos. Na agência de propaganda e marketing Novacentro, onde Grazielle Araújo é assessora de imprensa, o “zunzunzum” dos colegas é constante. “Eu sou jornalista, eles são publicitários, todos da área da comunicação... Já viu jornalista fazer silêncio? Eu nunca vi! É telefone da mesa que toca junto com o telefone celular, às vezes o rádio está ligado ou estou vendo um vídeo no computador... tem horas que até o barulho do teclado incomoda, mas é necessário, fazer o quê?”, justifica Grazielle.

Chega a hora do almoço. Salvo se você tem a possibilidade de aproveitar o aconchego do seu lar no intervalo de uma hora, não há saída a não ser enfrentar um restaurante lotado ou uma praça de alimentação de um dos shoppings da cidade. A união das vozes, o ruído dos pratos somado ao tilintar dos talheres forma uma sinfonia louca, onde não ouvimos nem nosso próprio coração. No shopping é ainda pior, pois além de todos os ingredientes anteriores temos a música ambiente. Que se fosse mesmo ambiente não teria problema, pois normalmente é ao vivo: o artista quer se fazer ouvir, e acabamos nos sentindo num caldeirão sonoro, onde o ingrediente principal desta “sopa” é a disputa pela nossa atenção.

Algumas pessoas aproveitam o intervalo do almoço para buscar um instante de silêncio. É o caso de Lindomar da Silva, pedreiro, que todos os dias vai a capela histórica Nosso Senhor dos Passos, localizada na Santa Casa de Misericórdia, no Centro da capital. “Venho aqui todos os dias, faço umas orações fico um pouco em silêncio, e volto a trabalhar renovado. É muito bom, o silêncio é muito gostoso. Me lembro lá de fora, no campo, lá tem muito mais silêncio, só ouvimos os grilos...”, disse ele. Algumas pessoas aproveitam o ambiente da capela para a leitura, e apesar da música em latim, é um ambiente tranqüilo. Diferente dos corredores do Hospital e mais alheio ainda as avenidas ao redor. Concentrar-se parece mais fácil.

Voltamos ao trabalho, e mais uma boa dose de toques de telefone, chamadas, bipes, folhas, teclado e reuniões, pausa para o cafezinho. Atendemos o celular ou ligamos para alguém. Voltamos às atividades e o nosso pensamento não silencia nunca. Não tiramos os olhos de frente da tela a não ser que a impressora faça barulho pedindo tinta ou folha. O expediente termina com o bipe da máquina ponto registrando o horário de saída.

Acabou? Não... Muitos começam uma nova e barulhenta jornada: é a lista do supermercado, uma atividade do trabalho que vai ser terminada em casa, aula na faculdade, aula de dança, tarefas do curso de inglês, pegar o filho na escola ou ainda, aquela saudade de pegar um cinema. Alguns vão se preparar para um assistir um show, ou para tocar com a banda em algum barzinho.

A melodia do silêncio.

Músicos e artistas são, naturalmente, pessoas com muita sensibilidade. A banda Sexteto Blazz estava no Café da Oca. O ritmo era o jazz, pura improvisação. Os músicos tocavam em silêncio. Os olhares falavam muito: erros, acertos, comemorações e aprovações seladas num olhar ou sorriso velado. Os que assistiam e estavam envolvidos pela música: em silêncio. Cada casal, cada mesa ocupada, em absoluto silêncio, se deixando levar pela música.

Para o tecladista Leandro Hessel, música é silêncio. “Sem o silêncio a música não existiria. Não é a quantidade de notas que faz uma música ser boa e sim as notas certas nos momentos certos. O bom músico, o bom compositor, é aquele que sabe usar o silêncio a favor da música, para criar o ritmo certo, melodioso”, disse Hessel.

O silêncio absoluto não existe. Mas se existisse seria assustador. “Deixaria nítida, seria a comprovação da solidão absoluta”, explicou o tecladista. Para ele o local mais silencioso é a beira da praia. “O mar tem um barulho próprio, é quase um mantra... Prefiro assim, um ruído longe, constante, do que o silêncio absoluto”, completou.

O mês do silêncio.

No Brasil, esquecemos que o silêncio existe em fevereiro. Festa, folia e farra! Show, sereno e samba. Tem banda, balada e bumba meu boi. Trio elétrico, “tira o pé do chão” e “todo mundo louco”! Muito confete e serpentina: é o nosso Carnaval!

Todos estavam no sambódromo de Porto Alegre na noite de segunda-feira, quando a especialista e m cultura brasileira e carnavalesca do Rio de Janeiro, Maria Augusta, chegou. A paleta de cores vibrantes das suas roupas já demonstrava parte do seu amor pelo carnaval. As mãos cheias de anéis e o corpo envolto com colares de miçangas auxiliavam nas explicações sobre a importância do ritmo para uma escola de samba. E o que isso tem a ver com o silêncio? Tudo. Cada batida e cauda pausa num surdo de bateria, cada apito do mestre de bateria, a maneira como o corpo se move no samba, tudo tem relação com as formas de utilizar o silêncio para criar a marcação do compasso, item fundamental para o quesito harmonia. “É no silêncio que eu crio. O silêncio é muito pessoal, eu, por exemplo, preciso dele para me concentrar. Os bons temas enredos surgem quando eu sonho! Me acordo, escrevo e em duas horas está pronto. Mas é raro... Quando isso não acontece, preciso pesquisar, ler muito e isso requer concentração, atenção”, explica ela.

E quando o silêncio não vem?

João Alfredo, Cidade Baixa, Porto Alegre. Bar: Ossip. Quando o assunto é happy hour, muitos jovens gaúchos escolhem a Cidade Baixa como alternativa de lazer. Até aí, nada de mais. A preferência de muitos é o boteco Ossip, bem na esquina, com iluminação intimista e poucas mesas para acomodação da centena de clientes que passa por ali nas noites movimentadas. O problema com silêncio é constante. A Relações Públicas, Vanessa Gomes, mora no prédio em frente ao bar. “Lei do silêncio: ela existe? Alguém respeita? Eu sei que a lei existe, mas na João Alfredo - Porto Alegre ninguém respeita.. Quando chega a hora de dormir, não tem jeito, a minha receita é o bom e velho algodão na orelha”, reclama.

Para Grazielle Araújo, jornalista, uma das situações que mais sente falta do silêncio é no cinema. “É o barulho do papel de bala, do saco de pipoca, do final da latinha... ou então é pior, algum um mal educado que esqueceu o celular ligado...”, diz, injuriada.

As duas profissionais da comunicação concluem que no dia a dia não existe silêncio. “Nem no alto de uma montanha não há silêncio. Ainda assim vamos ouvir o barulho do vento”, reflete Vanessa. E Grazielle complementa “pois tu sabes que agora fiquei pensando quando foi a última vez que tive alguns segundos de silêncio... e ainda não consegui me lembrar!”.

Silêncio x Palavras

Em “Deficiências”, Mario Quintana escreveu: "Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão, pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.

Na Bíblia, Jesus diz aos discípulos que “temos duas orelhas e apenas uma boca, para ouvir mais e falar menos.”
A maioria das pessoas acha que a beira da praia é um lugar silencioso.
Algumas pessoas acreditam que a música é feita de silêncios.
O silêncio absoluto não existe, e se existisse seria assustador.

E você? Leu esta matéria num lugar silencioso? O que o silêncio significa para você?

Um comentário:

  1. Mel, ficou muito boa a matéria.
    Acabei de lê-la ao som da impressora maldita que está a funcionar a mais de cinco horas sem parar... Até já me acostumei com o som! hehehe

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